Em toda produção de um podcast eu presto bastante atenção às orientações passadas (o briefing em português moderno) sobre como deve ser a identidade sonora do show. No caso desse podcast eu tinha 1) a própria peça "Arena Conta Zumbi", cujo disco está disponível no YouTube e 2) um emaranhado de conceitos como "feminino", "ancestral" entre outros.
De saída, percebi que o resultado esperado por todos para essa identidade sonora era algo que remetesse bastante diretamente à sonoridade de rituais religiosos afro-brasileiros. Mas a escuta do material disponível sobre o musical Arena Conta Zumbi me mostrava um referencial diferente disso.
Três instrumentos são encontrados no registro musical da peça: o violão de nylon dedilhado, a bateria e em menor medida a flauta transversal. E quais os ritmos? Bem, pela minha experiência, toda peça de teatro musical brasileira costuma exibir uma variedade grande de ritmos e "Arena Conta Zumbi" não é diferente. Mas, para minha surpresa, o ritmo mais explorado no repertório é uma espécie de samba jazz. Algo que ora me soava como bossa nova, ora como o samba tal como tocado no beco das garrafas - local onde entre outros fenômenos, a saudosa Elis Regina apareceu na cena carioca. Claro que “Arena Conta Zumbi” também tinha muita variedade ali no meio dentro dessa proposta de samba tocado em bateria de jazz. Agora, que eu pudesse identificar diretamente com música religiosa afro brasil, apenas 1 faixa. Ela era a décima quarta, chamada "Venha Ser Feliz". Nela os tambores graves e a figura desenhada pelo prato de condução me remeteram a sonoridade ritual.
Bem, o jazz e o samba são por excelência a música negra de Estados Unidos e Brasil. Ambas tem suas origens conectadas ao ritual religioso cultivado por grupos de africanos trazidos escravizados ao nosso continente ou de descendentes deles. Ainda assim, para usar exemplos brasileiros, um disco do Zimbo Trio não soa como a Orkestra Rumpilezz.
Dito isso, resolvi seguir pelo caminho mais fortemente trilhado pelo trio do Teatro de Arena, compus a sequência de acordes sobre uma base de bateria de samba programada por mim o que, aos meus ouvidos, remete quase que automaticamente ao jazz. Improvisei uma melodia organizada como um diálogo a ser encenado por sax barítono e flauta. Podem chamar isso de um lugar comum, mas pensei que o contraste das vozes desses instrumentos poderiam, para alguém, quem sabe, remeter ao masculino e feminino.
Outra tarefa, era a de lembrar o ouvinte da sonoridade do candomblé ou umbanda. Em busca disso, tentei encaixar uma rítmica em algum ponto do tema. A segunda melodia de notas mais alongadas e cantáveis foi aquela em que consegui implantar com sucesso o ijexá das congas. Dessa forma, espero, creio ter conseguido equilibrar os diferentes ecos da herança africana presente na nossa música. A prova disso, é que tanto Yonara Dantas e Monalisa Vasconcelos, diretora e roteirista, apreciaram o tema de abertura. De quebra, nosso Cacau Guarnieri, que conheceu por dentro o Teatro de Arena, acrescentou que a sonoridade do tema “remete a uma jam dos músicos da companhia”.
Bacana :)
Luís Santiago Málaga é compositor, multi-instrumentista, sócio-fundador da Tímpano e aficionado por Podcasts.
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